sábado, 10 de julho de 2010

TOCA A SEGUIR, QUE SE FAZ TARDE...

Já sinto as pernas presas de não passar do primeiro dia, que me vou fazer ao caminho!
Segundo dia, 10 de Junho, feriado em Portugal. E o que é que isso interessa se agora o que cada um está a fazer é o inventário do seu sistema músculo esquelético, à mesa do tal cafezito do rapaz bem apessoado, por terras de Redondela. Tudo bem contado não falta nada - os músculos, ossos, tendões estão todos, e já estamos em frente do albergue para a fotografia de partida (essa que aparece num post anterior), todos sorridentes. Sai-se de Redondela a subir, que doutra forma nem nos lembraríamos, porque o raio do caminho deve levar ao céu que não me lembro de nenhuma descida ligeira - há umas descidas que dão cabo dos gémeos e dos costureiros(são músculos, não é gente!), mas isso era quando desistíamos da salvação e parecíamos rumar ao Inferno. Mas minto - ainda o dia ia leve e descíamos uma vereda, com a Ria de Pontevedra de cenário pela esquerda, passa por mim um atlético caminheiro, em passo acelerado e tão arranjadinho que logo na minha mente assentei que era bávaro o rapaz. E por isso nessa noite foi em inglês que a ele me dirigi quando vi que pretendia assentar arraiais ao meu lado... mas isso foi muita chuva depois! Por essa altura chegávamos a Soutomayor e percorríamos um belíssimo trecho, ainda sem chuva que essa só chegaria pela tardinha. Atravessada a ponte romana e calcorreando as ruas típicas de lage da povoação seguinte, era no céu que nos sentíamos. O atento transeunte achou que a Rita era alemã, ou de outro estrangeiro qualquer e que nós devíamos ser uma cambada de idiotas, porém, alegres!
Depois o mastigar de quilómetros é que torna a coisa mais dorida e aquela estrada para chegar a Pontevedra, não ganhou nada em ser tão comprida! Portanto lá fomos encostando naquela esplanada ao pé da Rotunda que anunciava a capital da província. E não é que não foi mesmo um puelvito, junto com a tortilha e os revueltos ...
E aqui começaram-se a deitar contas à vida: alguns já tinham dado tudo para o peditório do dia, outros ainda se sentiam nuito generosos e por último houve aqueles que não quiseram ficar atrás (duns e doutros). Para minha surpresa a Alexandra, que vinha em tão boa pedalada, resolveu ficar; sem surpresa o Ulisses acompanhou cavalheirescamente as duas damas mais necessitadas; a Eunice começando a revelar uma têmpera que me surpreendeu até ao último dia, continuou; a Ana sabia ao que ia e portanto "seja o que fôr preciso". E dessa foram se deu a Grande Cisma do Caminho - quatro ficaram para dormir em Pontevedra, o que se revelou fatal e os outros quatro prosseguiram para Bairro, 12 ou 13 Kms à frente e outros tantos metros cúbicos de água, por cabeça, que Deus é grande e resolveu pô-los à prova. À prova mesmo esteve a Lili, que enquanto lhe caíam cântaros por cima, despejava alguidares por baixo...
Atrasada a saída de Pontevedra, com a chuva a engrossar e a tarde a cair, tive o único momento do caminho em que me arrependi de levar tantas mulheres por companhia! E ainda por cima se nos haviam de juntar como companheiras de ocasião mais seis, meio dondocas, que faziam o caminho em regime de jogging assistido!
O bucólico caminho na margem fresca de um ribeiro, mais parecia o cenário de um combate na lama. Roupa irremediávelmente encharcada, jorros de lama nas inclinações, trajectos alagados sem alternativa e aquelas inspiradoras lesmas castanhas gigantes. Cada um guardará deste trajecto as memórias próprias, mas uma coisa é certa - quanto mais custa, mais gozo dá!
Quando os ossos começavam, também eles a ser irrigados pela chuva que já perspassara a pele, os músculos, as aponevroses, eis que lampeja no horizonte duma subida o mirífico anúncio, envolto em eflúvios celestiais de CASA del PULPO.
Ir-se-iam os caminheiros abrigar debaixo dum telhado a comer os membros tenros do molusco?
Não conhecem a alma desta gente - ficaram ao ar livre, ainda que abrigados por um modesto alpendre e foi então que todas as contrariedades do dia ficaram neutralizadas por uma canja com garbanzos, quente e retemperadora.
Daí até ao albergue foi um pulo e o que mais se passou nesse dia deixo para quem venha a seguir, embora não deixe de lembrar as sábias palavras da Lili, que considerou aquele tugúrio o melhor poiso de todo o caminho ... E verdade que não faltaram surpresas ... Cá esperamos o depoimento, sentido, claro, da Eunice... E porque não chamar a depôr o recém chegado a quem queriam "picar"! Um noite inolvidável ...

2 comentários:

  1. Pelo que entendo, são memórias.
    Pergunta: Quantos começaram e quantos acabaram?

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  2. Começamos 10 e terminamos 6 :)

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