quarta-feira, 4 de agosto de 2010

1º dia visto por mim

Ora finalmente cá estou eu conforme prometido para partilhar convosco a minha experiencia, assim sendo há que começar pelo princípio. Já há algum tempo que tinha decidido fazer o Caminho de Santiago, só não sabia quando, já que não me aventurava a fazê-lo sozinha. Quis o acaso que a Lili e a Rita fossem fazer o Caminho com alguns amigos precisamente na altura em que eu estava de férias. Ora como não tinha planos para as férias tratei logo de “colar-me” ao grupo. Como fui bem aceite, comecei entusiasmadamente a ajudar a Lili nos trabalhos de casa, ou seja, na elaboração da lista com o que deveríamos levar, na pesquisa de sites e de blogs com dicas sobre o caminho, na compra do equipamento, etc. Tentámos também preparar-nos fisicamente para o dia, com umas caminhadas ao fim do dia, mas estas acabaram por ser apenas 2 ou 3. Ah! E não esquecer a árdua tarefa de fazer a mochila. Depois de feita, pesada e refeita algumas vezes, finalmente ficou pronta!

Chegou o dia da partida e confesso que estava um pouco apreensiva, não sabia muito bem o que me esperava, já que nunca tinha feito nada do género e apenas conhecia 3 elementos do grupo (éramos 10 ao todo). Ainda em Caldas conheci a Filipa e a Alexandra com quem fizemos a viagem para Viana do Castelo, pois aí iríamos pernoitar em casa da Rita.

Logo na 4ª feira (dia de inicio do caminho) começaram os sacrifícios, já que ter que levantar cedinho é coisa que detesto, mas enfim… era por uma boa causa. Após nos juntarmos em casa da Rita e de nos apresentarmos uns aos outros, seguimos (todos menos o Aquarius) para a Estação de Viana do Castelo onde apanhámos o comboio para Valença. Já em Valença foi preciso retirarmos da mochila a capa da chuva pois esta ameaçava tornar-se mais forte. Saímos de Valença pela ponte ferroviária para entrarmos em Tuy já território galego, aqui parámos na catedral para carimbarmos a credencial. Estava já a preparar-me para seguir caminho, quando ouço chamar “-peregrina, peregrina” lá me aproximei e o senhor (já com alguma idade) ofereceu-me uma pregadeira com uma seta amarela. Claro que fiquei à espera que a seguir me pedisse uma moeda e qual não foi o meu espanto quando tudo o que ele disse foi: “-sigue las flechas amarillas como esta” e me presenteou ainda com sorriso. São pessoas assim, despretensiosas, que tornam o Caminho único. Deixando Tui para trás lá segui viagem tendo por companheiro de caminhada durante a maior parte da manhã o Ulisses. Pouco depois deparámo-nos com o primeiro trecho de estrada de alcatrão, onde uma berma pintada a vermelho, cria alguma segurança. Segue-se uma das mais belas (e emblemáticas) partes do Caminho – A Ponte das Febres – logo após entrámos numa pequena povoação e não é que encontro à berma da estrada uma máquina de café Delta e uma com chocolates. Corri para a máquina desejosa do meu cafezinho matinal, mas infelizmente estava avariada (pudera ali ao sol e á chuva). Acabei por me contentar com um Kit Kat da máquina do lado que gentilmente partilhei com um cãozinho que se aproximou de mim com um olhar pedinchão : pois que o caminho é feito de partilhas. Pouco depois e ainda antes de entrarmos na malfadada recta de Porriño parámos perto do bar de Suzo para comermos as nossas sandes, e tomar um cafezinho no referido bar. Foi aqui que obtive a minha Vieira, símbolo do caminho, oferta do dono do bar. Após um curto descanso lá seguimos em direcção a Porriño. Na recta do polígono industrial de Porriño (7 kms de puro desespero) o Aquarius juntou-se ao grupo. Á entrada de Mós fiz uma pequena pausa junto a uma fonte onde tive a oportunidade de conversar um pouco com um espanhol e duas espanholas que também estavam a fazer o caminho. Após uns momentos de pausa seguimos para Redondela. Á saída de Mós existe uma subida muito íngreme que parece que nunca mais acaba. Acho que foi aqui que comecei a esmorecer e ainda faltavam uns kms para Redondela. Quase a chegar ao cimo o Ulisses deixa cair o bordão e não é que este começa a rolar ladeira abaixo fazendo com que o desgraçado tenha que fazer uma pequena corrida para o apanhar. Mas apesar de tudo não se pode desistir e há que andar para a frente, é que a seguir vem a descida para Redondela e eu não sei o que é pior, se as subidas se as descidas. Aqui confirmei mesmo que as descidas são piores, muito piores. Esta descida fi-la com a Cristina, precedidas de perto por uns “cromos” que estiveram quase, quase a sentir o peso do bordão da Cristina nas costas, mas finalmente lá nos conseguimos livrar deles. Afinal também há “palermas” no Caminho, claro que tinham que ser tugas :D Chegadas a uma “obra” perguntamos aos trabalhadores se faltava muito para Redondela ao que eles responderam que faltava apenas 1 km. 1 Km para eles porque para nós pareceram 3 ou 4. Finalmente entramos em Redondela e chegamos ao albergue. Quando depois de termos feito o “check in” me deparo com umas escadas ia morrendo, mas lá as subi e resolvi esperar pelos companheiros ali mesmo, enquanto a Cristina lá arranjou coragem para descer novamente à espera do grupo. Depois de um banhinho retemperador resolvemos ir jantar. Descer aquelas escadas foi um suplício, sempre que dava um passo as minhas pernas tremiam e eu só me perguntava quando é que iria me desequilibrar escada abaixo. Com alguma dificuldade lá atravessei a Praça para comer qualquer coisa e voltar para o albergue para dormir. O cansaço era tanto que mal dei pelos ataques epilépticos do casal da frente ou pelos roncos do Zé António.